
SÉRIE · PORTO, PORTUGAL · 2024
Porto
41°08' N · 8°36' W
Oito obras entre o granito e o rio: a cidade que deu a carne às naus, ficou com as tripas e nunca se rendeu.
O Porto se lê a partir do Douro. Na margem norte, a Ribeira empilha casas de granito com varandas de ferro e roupa estendida; na margem sul, em Vila Nova de Gaia, as caves guardam o vinho que levou o nome da cidade ao mundo. Entre as duas, desde 1886, a ponte Luís I, desenhada por Théophile Seyrig, antigo sócio de Gustave Eiffel, costura as margens em dois tabuleiros de ferro.
Esta série procura a cidade entre a chuva da noite e o sol rasante da tarde: as luzes de Gaia desfeitas na água, a Ribeira vista pelos X de ferro da ponte, as fachadas onde a vida privada se pendura na varanda, uma vizinha à janela e um homem de bronze puxando a corda. Ela conversa com a pintura e o cinema: Monet, Friedrich, Hitchcock e Manoel de Oliveira reaparecem em obras que a fotografia encontrou na rua.
Porto, 2024, em oito imagens e três atos. A obra que dá capa à série é a Ribeira vista da ponte Luís I, através da treliça de ferro: o cais cheio, os barcos rabelos atracados, a cidade inteira presa num quadro. Se Lisboa é o tempo à espera, o Porto é o tempo que trabalha: uma cidade que sempre viveu do rio e nunca se deixou vencer.
RIBEIRA · CAIS DA RIBEIRA · DOURO · VILA NOVA DE GAIA
I
Rio de Ouro
DOURO
O nome do Douro vem provavelmente de uma raiz anterior aos romanos, mas a cidade prefere outra explicação: rio de ouro, como ele fica no fim da tarde. Foi por ele que desceram, durante séculos, os barcos rabelos carregados de pipas de vinho, e é sobre ele que o Porto e Gaia se olham todas as noites, de margem a margem.
01 / 08

Impressão, Douro
Impression, Douro
RIO DOURO, PORTO, PORTUGAL
Em 1872, Claude Monet pintou o porto de Le Havre ao amanhecer, com o sol vermelho desfeito na água, e chamou o quadro de Impressão, Sol Nascente; dois anos depois, um crítico usou o título para zombar do grupo, e o nome ficou: impressionismo. No Porto, a impressão é noturna e molhada: a chuva cai diante da lente, as luzes das caves de Gaia se desfazem do outro lado do rio, e o reflexo no Douro pinta o resto em pinceladas de laranja.
02 / 08

Obra-capa da série
Faina Fluvial
Labor on the Douro
PONTE LUÍS I, PORTO, PORTUGAL
Em 1931, aos 22 anos, Manoel de Oliveira estreou no cinema com Douro, Faina Fluvial, um documentário mudo sobre o trabalho na Ribeira: barcos, carregadores, a ponte de ferro e a luz do rio. Quase um século depois, a faina da Ribeira é outra, de mesas ao sol, guarda-sóis e barcos rabelos atracados à espera de quem os embarque. Vista pelos X de ferro da ponte Luís I, aberta em 1886, a cidade inteira cabe num quadro. É a obra que dá capa à série: o Porto emoldurado pela própria engenharia.
II
Granito e Roupa Estendida
RIBEIRA
A Ribeira, coração do centro histórico que a UNESCO declarou Patrimônio da Humanidade em 1996, é feita de granito: casas estreitas e altas, apertadas umas contra as outras desde a Idade Média, com varandas de ferro, azulejos e roupa estendida à vista de todos. No Porto, a vida privada não se esconde; ela se pendura na janela, como uma bandeira.
03 / 08

Invicta
RIBEIRA, PORTO, PORTUGAL
O Porto é a Invicta desde o cerco de 1832 e 1833, quando a cidade resistiu por mais de um ano às tropas absolutistas de D. Miguel ao lado de D. Pedro, o mesmo que dez anos antes proclamara a independência do Brasil e que, em agradecimento, deixou à cidade o próprio coração, guardado até hoje na Igreja da Lapa. Na Ribeira, as casas se erguem sobre um velho muro de granito, coladas umas às outras, com a roupa estendida nas varandas como quem não tem nada a esconder. É uma cidade que sobe em vez de recuar.
04 / 08

Janela Indiscreta
Rear Window
CAIS DA RIBEIRA, PORTO, PORTUGAL
Em Janela Indiscreta, de 1954, Alfred Hitchcock prendeu à cadeira um fotógrafo de perna engessada e lhe deu, como único espetáculo, as janelas do prédio em frente. No Cais da Ribeira, a fachada se oferece do mesmo jeito: portas numeradas, bares no térreo, janelas brancas em arco, faixas de azulejo, um pequeno painel de santo entre as varandas e, no andar de cima, a roupa da semana estendida ao sol. Cada janela é um capítulo; o fotógrafo, agora, está do lado de fora.
05 / 08

Anunciação
Annunciation
PORTO, PORTUGAL
Nas Anunciações pintadas desde o Renascimento, o Espírito Santo desce sobre Maria em forma de pomba branca, num raio de luz. Sobre os telhados escuros do Porto, quem faz esse papel é uma gaivota: ela atravessa o quadro rente a uma cruz de pedra, contra um muro coberto de grafite, e por um instante a cidade antiga e a cidade de agora cabem no mesmo voo.
III
Tripeiros
PORTO
Diz a lenda que, em 1415, quando o Infante D. Henrique, nascido no Porto, preparava a armada para Ceuta, a cidade entregou toda a carne aos navios e ficou só com as tripas. Desde então, quem é do Porto é tripeiro, e as tripas à moda do Porto viraram prato de honra. Este ato é a gente da cidade: uma vizinha à janela, alguém que fotografa quem fotografa e um homem de bronze puxando a corda.
06 / 08

O Jornal do Bairro
The Neighborhood Gazette
PORTO, PORTUGAL
Em 1822, Caspar David Friedrich pintou uma mulher de costas, à janela do ateliê, olhando o rio lá fora. No Porto, a cena se inverte: a fotografia está na rua, e a mulher, debruçada sobre uma toalha cor de tijolo, olha a vizinhança como quem lê o jornal do dia. Atrás dela, o sol desenha ondas na cortina de renda; embaixo, os azulejos florescem em laranja. Nos bairros antigos, a janela ainda é a primeira página.
07 / 08

Olho por Olho
An Eye for an Eye
PORTO, PORTUGAL
Em 1896, o florista e fotógrafo amador Aurélio da Paz dos Reis comprou uma das primeiras câmeras de cinema e filmou, numa esquina do Porto, a saída dos operários de uma fábrica: foi o começo do cinema português. Mais de um século depois, na mesma cidade, alguém levanta uma velha câmera de caixa com um flash circular e esconde o rosto atrás dela. As duas lentes se encaram, e a pergunta fica no ar: quem está fotografando quem?
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A Sirga
The Towrope
PORTO, PORTUGAL
Durante séculos, os barcos rabelos desceram o Douro carregados de pipas de vinho e voltaram rio acima à força: a remo, à vela e, nos trechos mais bravos, à sirga, puxados à corda por homens nas pedras da margem ou por juntas de bois chamadas aos gritos pelos barqueiros. O trem chegou ao vale em 1887, e a última viagem comercial de um rabelo teria sido em 1964. Em bronze, contra o céu do fim da tarde, um homem curvado sobre a borda do barco ainda puxa a corda com o corpo inteiro.
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A série em edição limitada
Cada obra do Porto existe como print fine art em edição de 25 exemplares, numerados, assinados e acompanhados de certificado de autenticidade. Impressão em pigmento mineral sobre papel de algodão Canson Infinity.