A Fechadura, Lisboa, Portugal
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SÉRIE · LISBOA, PORTUGAL · 2024

Lisboa

38°40' N → 38°42' N

Catorze obras entre o rio e a chuva: a cidade que caiu em 1755, se levantou a régua e nunca deixou de olhar para o mar.

Lisboa se lê a partir do Tejo. Foi da praia do Restelo que as naus partiram para o mundo, e é sobre o rio que a cidade ergue os seus monumentos: o Padrão dos Descobrimentos em Belém e, na outra margem, o Cristo de braços abertos em Almada. Em 1º de novembro de 1755, um terremoto seguido de maremoto e incêndio derrubou o centro da cidade, e o Marquês de Pombal o redesenhou em linhas retas, com a Praça do Comércio aberta para a água.

Esta série procura a cidade entre o sol rasante e a chuva: o Cristo que abre os braços sobre o rio, os heróis de pedra de Belém, a praça reconstruída depois do terremoto, os elétricos amarelos que vencem as colinas e as ruas do Cais do Sodré vistas do alto numa manhã molhada. Toda em cor, ela toma emprestados títulos da poesia e do cinema: Camões, Pessoa e Cesário Verde, Wim Wenders e Alain Tanner batizam obras que a fotografia reencontrou na rua.

Lisboa, 2024, em catorze imagens e quatro atos. A obra que dá capa à série é o Arco da Rua Augusta visto pela fresta de uma escultura de bronze: a porta da cidade espiada pela fechadura. Se Nova York é o tempo empilhado e Chicago, o tempo reconstruído, Lisboa é o tempo à espera: uma cidade que olha o rio como quem ainda aguarda alguém voltar.

CRISTO REI · BELÉM · PRAÇA DO COMÉRCIO · BAIXA · CAIS DO SODRÉ

I

Onde a Terra Acaba

ALMADA → BELÉM

Camões escreveu que Portugal fica onde a terra se acaba e o mar começa. Em Lisboa, o mar começa no Tejo: foi da praia do Restelo que as naus partiram para o mundo, e é sobre o rio que a cidade ergue os seus monumentos, o Cristo de braços abertos na margem sul e o Padrão que aponta a proa para a foz.

01 / 14

A Promessa

A Promessa

The Vow

CRISTO REI, ALMADA, PORTUGAL

Em abril de 1940, reunidos em Fátima, os bispos portugueses decidiram erguer diante de Lisboa um monumento a Cristo, como súplica para que o país fosse poupado da guerra que tomava a Europa. Portugal ficou de fora, e a promessa foi cumprida em 1959: na margem sul do Tejo, em Almada, o Cristo Rei abre os braços sobre a cidade, inspirado no Cristo Redentor do Rio de Janeiro, com vinte e oito metros de estátua sobre um pedestal de oitenta e dois. Vista de baixo, contra o azul, a mão de palma aberta continua estendida, como quem ainda cumpre o que prometeu.

02 / 14

Mar Português

Mar Português

Portuguese Sea

BELÉM, LISBOA, PORTUGAL

Em Mensagem, de 1934, Fernando Pessoa escreveu que muito do sal do mar português eram lágrimas de Portugal, e perguntou se tinha valido a pena. O Padrão dos Descobrimentos responde em pedra: erguido em 1960, nos quinhentos anos da morte do Infante D. Henrique, ele lança sobre o Tejo a proa de uma caravela, por onde sobem trinta e duas figuras atrás do Infante: navegadores, cosmógrafos, missionários e poetas. Na luz da tarde, o calcário fica dourado, e o céu riscado de vento aponta o caminho que todos olham.

03 / 14

O Velho do Restelo

O Velho do Restelo

The Old Man of Restelo

BELÉM, LISBOA, PORTUGAL

No canto IV de Os Lusíadas, quando a armada de Vasco da Gama deixa a praia do Restelo, a poucos passos de onde hoje está o Padrão, um velho de aspecto venerando levanta a voz contra a partida: «Ó glória de mandar, ó vã cobiça». Camões deu a ele as palavras mais duras do poema, e o nome ficou na língua: em Portugal, velho do Restelo é quem desconfia do futuro. Na pedra, entre os heróis, uma barba longa, um frade de mãos postas e um jovem de armadura olham o mesmo horizonte, cada um com a sua fé.

II

1755

PRAÇA DO COMÉRCIO → CONCEIÇÃO VELHA

Na manhã de 1º de novembro de 1755, dia de Todos os Santos, um terremoto, um maremoto e um incêndio derrubaram o centro de Lisboa. A cidade que voltou a se levantar foi desenhada a régua pelo Marquês de Pombal: a Praça do Comércio aberta para o rio, o arco triunfal da Rua Augusta, ruas retas e fachadas iguais e, no meio delas, um portal manuelino que sobreviveu para lembrar a cidade de antes.

04 / 14

A Fechadura

Obra-capa da série

A Fechadura

The Keyhole

PRAÇA DO COMÉRCIO, LISBOA, PORTUGAL

Depois do terremoto de 1755, o velho Terreiro do Paço renasceu como Praça do Comércio, aberta para o rio, e a Rua Augusta ganhou um arco triunfal para receber quem chegava pela água. A obra atravessou reinados e só ficou pronta mais de um século depois. Visto pela fresta de uma escultura de bronze esverdeado, o arco vira o que sempre quis ser: uma porta, e a fotografia, o olho que espia pela fechadura antes de entrar. É a obra que dá capa à série: a porta de Lisboa, vista pelo buraco da fechadura.

05 / 14

Virtutibus Maiorum

Virtutibus Maiorum

PRAÇA DO COMÉRCIO, LISBOA, PORTUGAL

No alto do arco, a inscrição em latim dedica a obra às virtudes dos antepassados, para que sirvam de ensinamento a todos. Acima dela, o escultor francês Célestin Anatole Calmels pôs a Glória coroando o Valor e o Gênio, e nas colunas Victor Bastos esculpiu Viriato, Vasco da Gama, Nuno Álvares Pereira e o Marquês de Pombal. Fotografada de baixo, contra nuvens que correm depressa, a frase de pedra ainda fala com quem passa: a cidade reconstruída pedindo que não se esqueça quem a fez.

06 / 14

Régua e Esquadro

Régua e Esquadro

Ruler and Set Square

BAIXA, LISBOA, PORTUGAL

Depois do terremoto, o Marquês de Pombal entregou a Baixa aos engenheiros militares: Manuel da Maia, Eugénio dos Santos e Carlos Mardel redesenharam o bairro em ruas retas, quarteirões iguais e fachadas repetidas, erguidas sobre a gaiola pombalina, uma estrutura de madeira pensada para balançar sem cair no próximo tremor. A rua desta fotografia é a régua em ação: uma linha só, do primeiro plano ao fundo, dividida entre a fachada ocre de um lado e as varandas amarelas do outro.

07 / 14

Misericórdia

Misericórdia

Mercy

CONCEIÇÃO VELHA, LISBOA, PORTUGAL

O portal manuelino da Igreja da Conceição Velha é um dos poucos fragmentos da Lisboa de antes de 1755. Pertencia à igreja da Misericórdia, a irmandade fundada em 1498 pela rainha D. Leonor, e foi reaproveitado na reconstrução de 1770, depois que o terremoto arruinou a igreja. No tímpano, Nossa Senhora da Misericórdia abre o manto sobre um papa, um rei, uma rainha, bispos e um frade. Fotografado de baixo, o relevo oferece o mesmo abrigo de quase quinhentos anos: debaixo do manto cabem todos.

III

As Sete Colinas

BAIXA

Como Roma, Lisboa diz ter nascido sobre sete colinas, e foi para vencê-las que os elétricos chegaram, puxados a cavalo em 1873 e movidos a eletricidade a partir de 1901. Ainda hoje eles sobem e descem a cidade em amarelo, dos carros antigos da linha 28 aos novos da linha 15, e o 28 termina num nome que parece um verso: Prazeres.

08 / 14

Prazeres

Prazeres

BAIXA, LISBOA, PORTUGAL

O elétrico 28 atravessa as colinas de Lisboa entre o Martim Moniz e o Campo de Ourique, e a placa da frente anuncia o fim da linha: Prazeres. O nome promete prazer, mas no fim do percurso está um dos cemitérios mais antigos da cidade, onde Fernando Pessoa foi sepultado em 1935, antes de seguir, cinquenta anos depois, para os Jerónimos. Na luz rasa da tarde, o amarelo do carro e o anúncio de licor fazem a sua parte: a última parada se chama prazer, e ninguém tem pressa de chegar.

09 / 14

Elétrico

Elétrico

Electric

LISBOA, PORTUGAL

Em Portugal, o bonde se chama elétrico, palavra que ainda guarda a novidade de 1901, quando os primeiros carros movidos a eletricidade começaram a vencer as colinas de Lisboa. Os carros amarelos da linha 28 fazem curvas que nenhum ônibus faria, rente às fachadas de azulejo e às igrejas brancas, sob uma teia de fios que risca o céu, e levam na frente os anúncios de agora. A máquina que foi o futuro em 1901 virou o rosto mais antigo da cidade.

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Quattrocento

Quattrocento

BAIXA, LISBOA, PORTUGAL

No Quattrocento, em Florença, Brunelleschi e Alberti ensinaram a pintura a construir o espaço: linhas paralelas que se encontram num só ponto, no fundo do quadro. A Baixa redesenhada depois de 1755 oferece essa lição em cada esquina. Aqui, os trilhos, as fachadas e os fios correm para o fim da rua, onde aparece o rio, e um dos elétricos novos da linha 15 avança com os faróis acesos, a caminho da Praça da Figueira, como se a perspectiva o tivesse desenhado.

IV

Desassossego

CAIS DO SODRÉ

No Livro do Desassossego, publicado só em 1982, Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros num escritório da Baixa, olha Lisboa da janela e escreve sobre a chuva, o tédio e as ruas vistas de cima. Este ato é um dia de chuva no Cais do Sodré: do alto de uma ponte sobre a rua, a cidade se oferece em linhas, trilhos, fachadas, um arco de pedra e uma torre de relógio, e a melancolia vira forma.

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Lisbon Story

Lisbon Story

CAIS DO SODRÉ, LISBOA, PORTUGAL

Em Lisbon Story, de 1994, Wim Wenders manda um engenheiro de som a Lisboa atrás de um amigo cineasta que desapareceu no meio de um filme mudo sobre a cidade. O cineasta passou a filmar sem olhar, à procura das imagens que ninguém viu. Esta fotografia faz o caminho inverso: escolhe onde olhar. Pela grade de ferro de uma ponte sobre a rua, os remates fora de foco abrem passagem para a torre do relógio, as fachadas molhadas e a cidade que sobe ao fundo.

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Lisbon Revisited

Lisbon Revisited

CAIS DO SODRÉ, LISBOA, PORTUGAL

Álvaro de Campos, o mais inquieto dos heterônimos de Fernando Pessoa, escreveu dois poemas chamados Lisbon Revisited, em 1923 e 1926: nos dois, o poeta volta à cidade e já não se reconhece nela. Sob a chuva, a rua desce em linha reta entre fachadas pálidas, os trilhos brilham, um guarda-chuva vermelho atravessa a calçada e a torre do relógio marca uma hora que ninguém consulta. É a Lisboa que fica quando os postais vão embora.

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Na Cidade Branca

Na Cidade Branca

In the White City

CAIS DO SODRÉ, LISBOA, PORTUGAL

Alain Tanner filmou em 1983 Na Cidade Branca: um mecânico de navio, vivido por Bruno Ganz, desce em Lisboa e não volta a embarcar; fica na cidade e passa a filmá-la com uma câmera Super 8, longe de tudo o que deixou. A Lisboa do filme é feita de ruas quase vazias e luz de inverno, como esta, vista do alto numa manhã de chuva: os trilhos fazem a curva e somem entre os prédios, e a cidade parece esperar alguém que ainda não chegou.

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O Sentimento dum Ocidental

O Sentimento dum Ocidental

The Feeling of a Westerner

CAIS DO SODRÉ, LISBOA, PORTUGAL

Em 1880, Cesário Verde publicou O Sentimento dum Ocidental, um longo passeio pela Lisboa do fim do dia, entre ruas escuras, cais e gente que volta do trabalho, que começa assim: «Nas nossas ruas, ao anoitecer, / Há tal soturnidade, há tal melancolia». Sob o arco de pedra, a rua dos trilhos se abre para a luz do outro lado, e alguém sobre duas rodas atravessa a sombra a caminho dela. Mais de um século depois, é o mesmo passeio.

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A série em edição limitada

Cada obra de Lisboa existe como print fine art em edição de 25 exemplares, numerados, assinados e acompanhados de certificado de autenticidade. Impressão em pigmento mineral sobre papel de algodão Canson Infinity.