
SÉRIE · REGIÃO DE LOS LAGOS, CHILE · 2026
Los Lagos
41° S → 42° S
Cinquenta e duas obras entre o lago Llanquihue e a ilha de Chiloé: a água, a lava, a madeira e o que o mar devolve.
Em Los Lagos a água é o primeiro autor. Corta a lava do vulcão, enche o lago até a borda, sobe duas vezes por dia para sustentar as casas e volta ao mercado em forma de concha, de peixe e de sal. Esta série reúne o que ela deixou visível: o salto sobre a pedra negra, a raposa na neve, o peixeiro de capa azul, os barcos com nome de mulher, as tejuelas que a chuva lixou por um século.
Do vulcão Osorno aos palafitos de Castro, cinquenta e duas imagens em quatro atos. A figura humana aparece pelo trabalho: mãos que limpam o peixe, casas erguidas sobre estacas, nomes pintados numa proa. O assunto é um território que a água organiza e a madeira responde. Se Patagônia é o vento e a pedra, Los Lagos é a água e a madeira.
SALTOS DEL PETROHUÉ · VOLCÁN OSORNO · ANGELMÓ · CHILOÉ · FRUTILLAR

I
Água e Fogo
PETROHUÉ E VOLCÁN OSORNO · 41°11' S
O rio que nasce no lago Todos los Santos corre sobre a lava antiga do Osorno e ganha a cor do gelo. Na neve do vulcão, a raposa e a ave de rapina; nas margens do lago, a casa do colono. A água desenha, o fogo resiste.
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Obra-capa da série
Altazor
VOLCÁN OSORNO, PUERTO VARAS, CHILE
Sobre a neve do vulcão Osorno, a ave de rapina voa rente ao chão, de costas para nós, as asas inteiramente abertas, em direção a dois snowboarders que caminham ao fundo sem perceber. Em Altazor, o poema que Vicente Huidobro publicou em 1931, o poeta atravessa o céu numa longa viagem de paraquedas. Aqui a altura pertence à ave; os homens continuam presos ao chão. É a obra que abre a série.
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Onde a Névoa Mora
Where the Mist Lives
SALTOS DEL PETROHUÉ, PUERTO VARAS, CHILE
A floresta valdiviana sobe a encosta até onde a nuvem a recolhe. A névoa desce em camadas, apaga as copas uma a uma e deixa apenas a diagonal da montanha contra o cinza. Em Petrohué a névoa não visita: mora, e a mata aprende a viver dentro dela. Em preto e branco, a umidade vira luz.
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Cai Cai Vilu
SALTOS DEL PETROHUÉ, PUERTO VARAS, CHILE
No mito de origem de Chiloé, Cai Cai Vilu, a serpente da água, ergueu o mar contra Ten Ten Vilu, a serpente da terra, e da disputa nasceram as ilhas do arquipélago. Entre duas paredes de basalto do vulcão Osorno, o rio Petrohué passa em turquesa e espuma com a forma exata de uma serpente. Três faixas verticais, pedra, água, pedra: a batalha ainda em curso, e a água vencendo.
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Moto-Perpétuo
Moto Perpetuo
SALTOS DEL PETROHUÉ, PUERTO VARAS, CHILE
Na música, moto-perpétuo é a peça de notas rápidas e contínuas que não admite pausa. O rio se parte em canais e cai sobre a lava escura em degraus curtos, cada um com a sua cortina branca. A exposição longa amacia a água e endurece a pedra: o movimento que não para sobre aquilo que não se move.
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A Memória do Gelo
The Memory of Ice
SALTOS DEL PETROHUÉ, PUERTO VARAS, CHILE
O azul do Petrohué parece pintado, mas é lembrança: vem do lago Todos los Santos e dos sedimentos finos que a água carrega desde as geleiras. A queda inteira e o rio que segue dela, a lava negra em volta tornando a cor ainda mais mineral. Toda água desta região já foi gelo, e esta ainda se lembra.
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As Contas do Rio
The River's Beads
SALTOS DEL PETROHUÉ, PUERTO VARAS, CHILE
Blocos de lava arredondados pela água, molhados e negros, e a corrente passando entre eles como um fio. O tempo de exposição apaga a espuma e deixa as pedras à vista, alinhadas como as contas de um rosário que o rio desfia sem pressa. Em preto e branco, a correnteza se reduz a uma oração: o que resiste e o que passa.
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Ilha Particular
Private Island
COSTANERA DE PUERTO VARAS, LAGO LLANQUIHUE, CHILE
O Llanquihue é o segundo maior lago do Chile, e ao fim da tarde uma única pedra aflora para uma única gaivota. A água vibra em ondas miúdas e não há mais nada no enquadramento: nem margem, nem vulcão, nem cidade. Um território inteiro, reservado para um só morador.
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O Passageiro
The Passenger
LAGO LLANQUIHUE, CAMINHO DE ENSENADA, CHILE
Uma ave de rapina pousada num mourão à beira da estrada que contorna o lago, e atrás dela o azul de um ônibus em movimento. O foco separa os dois tempos: a plumagem nítida, o metal dissolvido. O ônibus passa; o passageiro que fica é ela.
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Cativa-me
Tame Me
VOLCÁN OSORNO, PUERTO VARAS, CHILE
Antoine de Saint-Exupéry voou como piloto do correio aéreo sobre a Patagônia antes de criar a raposa que pede ao pequeno príncipe para ser cativada. Na borda da neve do Osorno, a raposa para de perfil e olha adiante, o pelo cor de terra contra a mata branca de geada. Não foge nem se aproxima: espera, como quem considera o pedido.
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Esfinge
Sphinx
VOLCÁN OSORNO, PUERTO VARAS, CHILE
A mesma raposa, agora sentada sobre o gelo pisado, a cauda enrolada nas patas, a cabeça voltada para algo fora do quadro. A pose é a de uma esfinge: imóvel, atenta, guardiã de um enigma que não pretende revelar. Um animal selvagem que, por um instante, aceitou o retrato.
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Sfumato
VOLCÁN OSORNO, PUERTO VARAS, CHILE
Sfumato é o nome que a pintura do Renascimento deu à passagem sem contorno entre luz e sombra, a fumaça que Leonardo deixava entre as coisas. Da encosta do Osorno, as serras se sucedem em planos cada vez mais claros até se dissolverem na nuvem. Em preto e branco, a distância deixa de ser medida e passa a ser tom.
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Miragem
Mirage
VOLCÁN OSORNO, PUERTO VARAS, CHILE
O vento esculpiu a neve do vulcão em ondas largas, e a luz difusa as modela como dunas de areia branca. Por um instante a montanha finge ser deserto. Só a torre mínima de um teleférico, quase invisível, desfaz a ilusão e devolve a escala.
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Caligrafia
Calligraphy
VOLCÁN OSORNO, PUERTO VARAS, CHILE
Uma crista de rocha escura, coberta de neve recente, risca o horizonte sob um céu de nuvens pesadas. No chão branco, as pedras de lava afloram como sinais de pontuação. A montanha escreve numa única linha, e o vulcão assina embaixo.
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Epifania
Epiphany
ENSENADA, LAGO LLANQUIHUE, CHILE
Do alto de Ensenada, na ponta leste do lago, o cume se revela por um instante entre as nuvens, a neve acesa pela última luz e a floresta azul ao pé da montanha. Epifania é a manifestação súbita do que estava oculto, e os vulcões desta região, o Osorno e o Calbuco, só se mostram nesses termos. A montanha decide quando aparece; a fotografia espera.
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Idílio
Idyll
ENSENADA, LAGO LLANQUIHUE, CHILE
Uma casa de tejuelas e zinco, o telhado vermelho, as portas azuis, e diante dela um animal de lã que pasta sem pressa. A arquitetura dos colonos do lago em sua forma mais simples: madeira cortada à mão, chapa contra a chuva, cor contra o inverno. Um idílio no sentido antigo da palavra, o poema breve da vida no campo.

II
O Mar à Mesa
ANGELMÓ, PUERTO MONTT · 41°29' S
O mercado de Puerto Montt, sobre o canal de Tenglo, onde o mar chega em concha, em sal e em fumaça. Pelicanos no cais, alho de Chiloé, o peixeiro de capa azul: a mesa servida antes de existir a mesa.
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Vitral
Stained Glass
ANGELMÓ, PUERTO MONTT, CHILE
Lombos de salmão defumado em pé, enfileirados na banca, atravessados pela luz como vidro de catedral. Embaixo, as conchas abertas e os peixes do dia. Em Angelmó o mar chega em todas as formas, e a fumaça de lenha, a mais antiga delas, transforma a carne em âmbar.
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Monólogo Interior
Interior Monologue
ANGELMÓ, PUERTO MONTT, CHILE
De perfil, com o bico longo recolhido sobre o peito e o olhar voltado para dentro, o pelicano parece absorto num pensamento que não divide com ninguém. A plumagem parda e o cinza do canal se fundem num único tom, e só o amarelo do bico escapa. Monólogo interior é o nome que a literatura dá ao fluxo do pensamento sem testemunhas.
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Pianíssimo
Pianissimo
CANAL DE TENGLO, PUERTO MONTT, CHILE
Um barco pequeno atravessa o canal de Tenglo sob um céu de chumbo, com a ilha escura fechando o horizonte. A cor quase toda retirada, a água larga, a mata: a cena inteira tocada no volume mínimo. Pianíssimo, na partitura, pede o som mais baixo que ainda se ouve.
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Natureza-Morta com Bandeira
Still Life with Flag
ANGELMÓ, PUERTO MONTT, CHILE
Uma pilha de ajo chilote, o alho gigante de Chiloé, com o cartaz escrito à mão em papelão e uma bandeira chilena do tamanho de um dedo. A luz artificial da banca e as embalagens de papel completam a composição. A tradição da natureza-morta, que a pintura levou séculos para refinar, montada sem intenção num balcão de mercado.
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Gabinete de Curiosidades
Cabinet of Curiosities
ANGELMÓ, PUERTO MONTT, CHILE
Sob a lâmpada, a banca inteira: conservas, mel, cochayuyo pendurado em tranças, mariscos secos, alho, ervas. Nos gabinetes de curiosidades da Europa renascentista, colecionava-se o mundo em prateleiras; em Angelmó, a região inteira cabe entre duas persianas de metal. Um inventário da terra e do mar, sem catálogo.
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Impressões Digitais
Fingerprints
ANGELMÓ, PUERTO MONTT, CHILE
Almejas empilhadas até a borda do quadro, cada concha com os seus anéis de crescimento. A luz baixa modela o relevo e o padrão se repete sem nunca se repetir, como as linhas da ponta de um dedo. Centenas de iguais que são todas diferentes: cada uma assina com a sua própria linha.
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As Joias da Pincoya
The Pincoya's Jewels
ANGELMÓ, PUERTO MONTT, CHILE
Na mitologia de Chiloé, a Pincoya é o espírito do mar: quando dança de frente para as águas, as praias se enchem de peixes e mariscos. Os choritos, mexilhões do Pacífico sul, amontoados com as conchas ainda molhadas, azuis, negras, com o brilho de laca que só a água salgada dá. Vistos de perto, são o tesouro que ela deixa na areia.
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Liturgia
Liturgy
ANGELMÓ, PUERTO MONTT, CHILE
De capa azul contra a chuva, os cabelos grisalhos soltos, o peixeiro limpa o peixe sobre a tábua com o gesto de quem o repete há uma vida inteira. A bandeira no canto, os baldes, as facas em ordem: nada foi arrumado para a fotografia. O ofício repetido até virar rito, a capa como paramento, a banca como altar. É o retrato do ofício, não do homem.
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Heráldica
Heraldry
ANGELMÓ, PUERTO MONTT, CHILE
Dois pelicanos de pé no cais, lado a lado, as cabeças voltadas para direções opostas, com os barcos do canal desfocados atrás. A simetria é a de um brasão: duas cabeças claras, dois bicos longos, duas plumagens pardas. Sentinelas de um reino que é o mercado inteiro.
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Ode ao Tomate
Ode to the Tomato
ANGELMÓ, PUERTO MONTT, CHILE
Tomates em pirâmide, abóboras, batatas, pimentões, limões e um ramo de coentro, dispostos em caixas de madeira como numa pintura holandesa. Pablo Neruda dedicou ao tomate uma de suas Odes Elementares, celebrando o mais simples da cozinha chilena. Em Angelmó, a feira escreve a mesma ode em cor.
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Paisagem Tecida
Woven Landscape
ANGELMÓ, PUERTO MONTT, CHILE
Ponchos de lã crua, um vermelho no meio deles, cestos de junco trançado e miudezas de madeira pendurados no corredor do mercado. É o artesanato que a ilha e o campo mandam para o porto: a lã das ovelhas, a fibra dos pântanos, a madeira dos bosques. Tudo o que se vê aqui já foi paisagem, e voltou tecido.

III
A Ilha que Espera o Mar
ANCUD E CASTRO, CHILOÉ · 41°52' S → 42°29' S
Chiloé, em mapudungun, é o lugar das pequenas gaivotas. A caleta de Ancud com os barcos de nome próprio, as tejuelas de Castro e os palafitos que a maré levanta duas vezes por dia: uma ilha inteira construída para esperar.
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O Proprietário
The Proprietor
ANCUD, CHILOÉ, CHILE
Numa casa branca de tábuas, a porta descascada tem um guardião de quatro patas: o gato olha para a rua com a calma de quem é o dono do imóvel. O degrau, o capacho, a roseira ao lado completam a cena doméstica de Ancud numa manhã de chuva. A ilha se apresenta assim, pelo pequeno, antes de mostrar o mar.
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O Curador
The Curator
ANCUD, CHILOÉ, CHILE
Na soleira de uma loja de artesanato pintada de azul e verde, um cão de roupa roxa monta guarda sob a palavra ARTE. Os ponchos pendurados, a tinta gasta, a madeira molhada formam a sua coleção. Ninguém entra sem passar pelo seu crivo: o curador não late, avalia.
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Écloga
Eclogue
ANCUD, CHILOÉ, CHILE
Entre samambaias e galhos, três animais pastam diante de um galpão de madeira escurecida pela chuva. As éclogas de Virgílio cantavam a vida dos pastores em versos breves; aqui o poema pastoral é visto por uma fresta da mata. O enquadramento entre as folhas faz da cena um achado, não uma visita.
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Maquete
Scale Model
ANCUD, CHILOÉ, CHILE
Casas de madeira e zinco empilhadas pela colina, cada uma de uma cor, os telhados claros de chuva. Ancud foi fundada em 1767 e cresceu assim, encosta acima, em tábua e chapa. Vista por entre os galhos de um pinheiro, a cidade parece a maquete de um arquiteto, montada à mão, peça por peça.
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Finisterra
Finisterre
ANCUD, CHILOÉ, CHILE
Um promontório verde avança sobre o mar cinzento, com algumas casas no alto e as ondas quebrando na base. Finisterra era como os antigos chamavam o ponto em que a terra conhecida terminava. Em Chiloé a terra acaba em pedra e mata, sem praia, e o Pacífico começa sem aviso.
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Arco-Íris Atracado
Moored Rainbow
CALETA DE ANCUD, CHILOÉ, CHILE
Os botes de pesca atracados lado a lado, verdes, azuis, amarelos, vermelhos, com os motores cobertos e as cordas cruzadas. Na caleta de Ancud a frota é artesanal e a cor é a identidade de cada barco. Em repouso, as proas alinhadas formam um arco-íris que só se desfaz quando o mar chama.
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Ave Maria
CALETA DE ANCUD, CHILOÉ, CHILE
O nome pintado em letras grandes no casco, as antenas, as luzes de trabalho, a ponte com as janelas fechadas. Os barcos de Chiloé saem ao mar sob a proteção de santas, e Santa María II carrega a prece escrita no próprio corpo. Em preto e branco, a embarcação ganha a dignidade de um ex-voto.
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Nomes de Quem Fica
Names of Those Who Stay
CALETA DE ANCUD, CHILOÉ, CHILE
Dois cascos vermelhos de frente, Belén e Yorseba, com os nomes escritos à mão e a ferrugem subindo pela linha d'água. Os barcos de Chiloé levam nomes de mulher, de santa, de filha, e cada um é uma dedicatória a quem espera em terra. O barco vai ao mar; o nome lembra quem ficou.
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Retábulo
Altarpiece
CALETA DE ANCUD, CHILOÉ, CHILE
Os botes alinhados sob o cais, as redes verdes empilhadas, o casario de cor e, no alto, a torre da igreja. A cena se organiza em andares, como os retábulos das igrejas de Chiloé, onde cada nível conta uma parte da história. Ancud inteira num único painel: o mar embaixo, o céu em cima, o trabalho no meio.
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Totem
CALETA DE ANCUD, CHILOÉ, CHILE
Em vertical, o guindaste do cais, as redes amontoadas e, embaixo, as proas amarelas e azuis dos botes com as matrículas pintadas. A caleta se empilha como um totem, cada andar um emblema: a máquina, o apetrecho, o barco. Ao fundo, desfocada, a cidade que recebe o que tudo isso traz.
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O Pescador de Ferro
The Iron Fisherman
CALETA DE ANCUD, CHILOÉ, CHILE
No fim do cais, o guindaste ergue o braço sobre as redes como quem lança uma linha, e abaixo dele a fileira de botes espera com os motores de popa virados para cima. A névoa fecha a baía e a cor da manhã é a de um dia que ainda não decidiu. Entre tantos pescadores, este é o único que nunca sai do lugar.
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Kintsugi
CALETA DE ANCUD, CHILOÉ, CHILE
Blocos de concreto do molhe, gastos e empilhados, cobertos por um líquen amarelo intenso. No Japão, kintsugi é a arte de reparar a cerâmica quebrada com ouro, fazendo da fratura um ornamento. Aqui o mar desgasta e o tempo doura: o que foi feito para resistir à onda acabou virando obra dela.
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Protagonista
The Protagonist
CALETA DE ANCUD, CHILOÉ, CHILE
A proa de um bote amarelo, com a corda amarrada e a tinta gasta, em foco nítido diante da frota desfocada ao fundo. Formato vertical, profundidade curta: o barco pequeno assume o papel principal, e os grandes atrás viram figurantes. Na caleta, a hierarquia é do olhar, não do tamanho.
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Sinal de Fumaça
Smoke Signal
CASTRO, CHILOÉ, CHILE
Uma casa azul de janelas amarelas, a bandeira chilena numa delas, e a fumaça da chaminé subindo devagar sobre os telhados de zinco. Em Castro o inverno se anuncia assim, por uma coluna de fumaça que avisa a vizinhança que há fogo aceso. A cor forte das casas é a resposta de Chiloé ao céu baixo: pintar também é aquecer.
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Entremarés
Between Tides
PALAFITOS DE GAMBOA, CASTRO, CHILOÉ, CHILE
Na maré baixa, os palafitos de Gamboa mostram as pernas: estacas de madeira cravadas no lodo, as casas coloridas em cima, os barcos deitados no fundo que a água deixou. Duas vezes por dia o mar volta e tudo flutua de novo. A imagem fica no intervalo, a metade do ciclo que quase ninguém fotografa: a cidade em seco, à espera.
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Pernas de Pau
Stilt Walkers
PALAFITOS DE GAMBOA, CASTRO, CHILOÉ, CHILE
Em vertical, a vizinhança inteira empilhada: telhados vermelhos, azuis, amarelos, as escadas de madeira, as estacas e um barco verde encalhado entre elas. Os palafitos de Castro se equilibram sobre a maré como artistas de circo sobre pernas de pau. A lente longa comprime a encosta num único picadeiro de cor.
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A Casa que Olha
The House That Looks Back
CASTRO, CHILOÉ, CHILE
Duas janelas de moldura gasta numa parede inteira de tejuelas, as telhas de madeira recortadas em escamas que Chiloé usa há dois séculos contra a chuva. A fachada vira rosto: dois olhos de vidro, uma pele de madeira prateada pelo tempo. Quem fotografa é também observado.
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A Dama das Camélias
The Lady of the Camellias
CASTRO, CHILOÉ, CHILE
Camélias claras florescem contra uma parede de tejuelas avermelhadas, sob a luminária de latão que a chuva mantém polida. A casa veste as suas flores como a personagem de Alexandre Dumas Filho vestia as dela. É a obra mais delicada da série, e a mais doméstica: um jardim de porta, florindo no inverno da ilha.
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Esconde-Esconde
Hide and Seek
CASTRO, CHILOÉ, CHILE
Pela fresta de uma garagem de tejuelas, a frente vermelha e branca de uma BMW Isetta, o microcarro de porta frontal dos anos 1950, com a placa chilena ainda posta. O carro espia como quem brinca de se esconder, guardado inteiro na ponta do continente. A fotografia entra no jogo: só espia, não entra.
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Levitação
Levitation
PALAFITOS DE GAMBOA, CASTRO, CHILOÉ, CHILE
Um palafito branco apoiado em estacas finas sobre o lodo, com o capim verde em primeiro plano e o braço de mar vazio atrás. Na maré baixa a casa parece suspensa no ar, e de certo modo está: foi construída para uma água que agora não existe. A espera é o estado natural desta arquitetura.
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Alguém em Casa
Someone's Home
CASTRO, CHILOÉ, CHILE
Uma porta vermelha de tinta gasta, a parede de tejuelas escuras, o número 1268 numa placa pequena e uma lanterna acesa em plena tarde. A luz acesa diz que há alguém lá dentro, e a porta fechada guarda quem é. É a obra que fecha o ato da ilha: a madeira, a cor e a luz contra a chuva.

IV
O Lugar Escondido
FRUTILLAR, LAGO LLANQUIHUE · 41°07' S
Llanquihue quer dizer lugar escondido. De volta ao lago, o pasto dos colonos, o teatro de madeira sobre a água e uma carroça que o campo guardou. O silêncio como fechamento.
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Nº 0108
No. 0108
FRUTILLAR, LAGO LLANQUIHUE, CHILE
De frente, com o brinco numerado na orelha e a pelagem molhada, a vaca sustenta o olhar com a seriedade de um retrato oficial. Frutillar foi fundada por colonos alemães em 1856, e o leite é parte da sua história desde então. Em preto e branco, o número do brinco vira título, e o retrato, documento.
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Estudo para uma Novilha
Study for a Heifer
FRUTILLAR, LAGO LLANQUIHUE, CHILE
De perfil no pasto, a novilha para e olha, o corpo inteiro no quadro, o capim alto até os joelhos. O título vem da tradição dos estudos de ateliê, em que o pintor repete um mesmo modelo até encontrar a forma. Em preto e branco, o pasto vira textura e o animal, desenho.
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Fermata
TEATRO DEL LAGO, FRUTILLAR, CHILE
O deque de madeira do Teatro del Lago avança sobre o Llanquihue e termina numa curva, a água cinzenta de um lado, as tábuas molhadas do outro. Na partitura, a fermata é o arco que suspende a nota pelo tempo que o intérprete decidir. O teatro, casa de música à beira do lago, desenhou o seu próprio sinal de pausa sobre a água.
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Concerto para Madeira
Concerto for Wood
TEATRO DEL LAGO, FRUTILLAR, CHILE
A fachada do Teatro del Lago em ripas de madeira de tons diferentes, cobre, âmbar, castanho, e uma janela que reflete o céu verde-água do lago. As ripas se alinham como uma partitura vertical, e o edifício traduz as tejuelas da ilha para a linguagem contemporânea. Um concerto escrito para um único instrumento: a madeira.
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Ponto Final
Last Stop
FRUTILLAR, LAGO LLANQUIHUE, CHILE
Uma carroça de madeira abandonada no capim alto, as rodas de raio ainda inteiras, o mato crescendo por entre as tábuas. Os colonos chegaram ao lago com carroças assim, e esta parou onde o campo a deixou. É a obra que fecha a série: depois da água, da lava e do mar, o ponto final de uma viagem que ninguém mais vai continuar.

O artista e a obra
A fotografia volta a ser objeto.
Cada imagem desta série nasceu para existir no papel: pigmento mineral sobre algodão, margem branca generosa, a escala certa para que Altazor, Liturgia ou Alguém em Casa ocupem uma parede. Na imagem, Altazor, impressa e pronta para ser numerada, ao lado da câmera que a fez.
A escala é parte da obra. O que a câmera comprime, o papel devolve.
Colecionar
A série em edição limitada
Cada obra de Los Lagos existe como print fine art em edição de 25 exemplares, numerados, assinados e acompanhados de certificado de autenticidade. Impressão em pigmento mineral sobre papel de algodão Canson Infinity.