O Banquete

SÉRIE · CHAPADA DAS MESAS, MARANHÃO · 2024

Chapada das Mesas

7°08' S · 47°08' O

↓

Dezoito obras entre os paredões de arenito e a água que os desfaz: a pedra, as quedas, a mata e quem chega para ficar.

Na Chapada das Mesas, a pedra chegou primeiro. O arenito dos paredões começou como areia, endureceu em camadas ao longo de milhões de anos e foi sendo gasto pela chuva e pelos rios até restarem as mesas: morros de topo plano que dão nome à região, no cerrado do sul do Maranhão. Esta série percorre o que a água fez com essa pedra: os cânions, as quedas, os poços, a mata que cresce na sombra úmida e os bichos que vivem nela.

Maio de 2024, de Carolina a Riachão, em dezoito imagens e quatro atos. O vermelho do arenito, o verde da mata e o azul da água dividem a série entre si. Se o Grey é o tempo em estado sólido, a Chapada é o tempo em estado líquido: a água que levou milhões de anos para abrir cada cânion e leva um instante para cair dentro dele.

CAROLINA · PEDRA CAÍDA · SÃO ROMÃO · POÇO AZUL

I

Areia que Virou Pedra

CAROLINA, MARANHÃO · 7°20' S

O arenito da Chapada guarda a memória da areia que foi. Comprimido em camadas e depois gasto pela chuva e pelos rios, deixou de pé apenas as mesas, os paredões e as torres isoladas que o fim do dia recorta. De longe, a pedra é paisagem; de perto, é um livro de páginas finas.

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Obra-capa da série

O Banquete

O Banquete

The Banquet

CHAPADA DAS MESAS, CAROLINA, MARANHÃO, BRASIL

Platão situou o seu diálogo sobre o amor num banquete: uma mesa posta e convidados que falam, um de cada vez, até o dia amanhecer. Na Chapada das Mesas, as mesas são de arenito e foram postas há milhões de anos, quando a água começou a gastar o planalto e deixou de pé apenas os morros de topo plano. Em primeiro plano, o amarelo do cerrado estende a toalha; ao fundo, a luz da tarde acende o vermelho dos paredões e das torres de pedra. É a obra que dá capa à série: a mesa que dá nome ao lugar.

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★ 3º lugar · Blue Space Gallery, 2025

Ecos do Tempo

Ecos do Tempo

Echoes of Time

PEDRA CAÍDA, CAROLINA, MARANHÃO, BRASIL

Vista do alto, a borda do cânion mostra o que o tempo fez com o arenito: o paredão alaranjado riscado em camadas, a sombra que desce sobre a mata, as palmeiras abertas como estrelas e, quase escondida, a passarela de madeira que leva à água. Terra, água, ar e a luz que faz as vezes de fogo cabem na mesma composição; com ela, a obra conquistou o 3º lugar no Earth Fire Air Water da Blue Space Gallery, nos Estados Unidos, em 2025. Cada camada da pedra é o eco de uma época.

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O Livro de Areia

O Livro de Areia

The Book of Sand

PEDRA CAÍDA, CAROLINA, MARANHÃO, BRASIL

Borges imaginou um livro de areia, sem primeira nem última página, em que nenhuma folha se repete. O arenito da Chapada é um livro assim, escrito pela própria areia: grãos depositados camada sobre camada, endurecidos ao longo de milhões de anos e depois abertos pela água. Na parede, o vermelho do ferro e o branco da pedra correm em ondas, como linhas de uma escrita que ninguém lê inteira. Não há horizonte nem escala: só a página.

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O Arco e a Lira

O Arco e a Lira

The Bow and the Lyre

PEDRA CAÍDA, CAROLINA, MARANHÃO, BRASIL

Heráclito comparou a harmonia dos contrários à do arco e da lira, e Octavio Paz tomou a imagem para falar da poesia. No cânion da Pedra Caída, a pedra faz o arco: uma abóbada de arenito vermelho que a água escavou por baixo. A lira é o reflexo: na água cor de cobre, a luz que entra pela abertura desenha cordas que tremem a cada ondulação. Um é tensão, o outro é música, e os dois cabem no mesmo quadro.

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No Meio do Caminho

No Meio do Caminho

In the Middle of the Road

PEDRA CAÍDA, CAROLINA, MARANHÃO, BRASIL

No meio do caminho tinha uma pedra, escreveu Drummond em 1928, e o verso nunca mais saiu da língua; a poeta americana Elizabeth Bishop o levou para o inglês. No cânion que se chama Pedra Caída, a pedra está no meio do caminho da água: caiu do paredão, ficou e se cobriu de musgo, como só acontece com a pedra que deixou de rolar. O rio cor de cobre passa pelos dois lados, sob uma parede que ainda goteja.

II

Da Queda ao Remanso

PEDRA CAÍDA · SÃO ROMÃO · POÇO AZUL

Mais de quatrocentas nascentes alimentam os rios do parque, e a água desce o planalto em quedas que escavam a própria pedra. No Santuário da Pedra Caída, ela cai quarenta e seis metros dentro de um cânion; em São Romão, despenca com o maior volume do rio Farinha; no Poço Azul, para e fica transparente.

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Cantochão

Cantochão

Plainchant

SANTUÁRIO, PEDRA CAÍDA, MARANHÃO, BRASIL

O cantochão é a música das igrejas antes da harmonia: uma só voz, sem acompanhamento, que avança devagar e enche a nave. No Santuário da Pedra Caída, a cachoeira cai quarenta e seis metros dentro de um cânion e soa assim: uma voz contínua, de cima a baixo, que as paredes devolvem. Embaixo, as pedras cobertas de musgo e o riacho que segue são o fim da frase. Não por acaso, a cachoeira se chama Santuário.

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Invenção a Duas Vozes

Invenção a Duas Vozes

Two-Part Invention

SANTUÁRIO, PEDRA CAÍDA, MARANHÃO, BRASIL

Bach escreveu suas invenções a duas vozes como exercício: duas linhas independentes que nunca se confundem e, juntas, fazem uma só música. No cânion do Santuário, a água cai em duas colunas paralelas, separadas por uma faixa de pedra escura, e chega ao poço ao mesmo tempo. As paredes de musgo e camadas emolduram a cena na vertical e deixam as duas vozes no centro. É contraponto feito de água.

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Fortíssimo

Fortíssimo

Fortissimo

SANTUÁRIO, PEDRA CAÍDA, MARANHÃO, BRASIL

Na partitura, fortíssimo é a indicação de tocar com toda a força. Na base do Santuário, a água chega ao poço depois de quarenta e seis metros de queda, e o que era linha vira névoa, espuma e estrondo. A imagem se aproxima do ponto de impacto e deixa as paredes nas laterais, para que o branco ocupe o centro. Depois da voz única e das duas vozes, a cachoeira em volume máximo.

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A Mensageira

A Mensageira

The Messenger

CACHOEIRA DE SÃO ROMÃO, CHAPADA DAS MESAS, MARANHÃO

Para os gregos, Íris era a mensageira dos deuses e descia à terra pelo arco-íris. Em São Romão, a maior queda do rio Farinha em volume de água, a mensagem chega pela névoa: o sol atravessa a nuvem de gotas que sobe da base e acende um arco colorido sobre a água revolta. A cachoeira fica dentro do Parque Nacional da Chapada das Mesas, a mais de oitenta quilômetros de Carolina. O arco dura enquanto houver sol e água.

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Luxo, Calma e Volúpia

Luxo, Calma e Volúpia

Luxe, Calme et Volupté

POÇO AZUL, RIACHÃO, MARANHÃO, BRASIL

No poema Convite à Viagem, Baudelaire promete um lugar onde tudo é ordem e beleza, luxo, calma e volúpia; Matisse tomou o verso como título de uma pintura. No Poço Azul, em Riachão, pequenas quedas descem entre pedras cobertas de musgo e desaguam numa água tão transparente que o fundo aparece, em tons de azul e verde. Depois do estrondo das cachoeiras, a série chega ao remanso: a água parada, que só se move na borda.

III

Mata de Galeria

PEDRA CAÍDA, CAROLINA

No cerrado, mata de galeria é o nome da floresta que acompanha os rios e fecha a copa sobre eles, como o teto de uma galeria. No fundo dos cânions, na sombra e na umidade, ela guarda samambaias, cipós e folhas largas que o planalto seco não conhece.

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O Fio de Ariadne

O Fio de Ariadne

Ariadne's Thread

PEDRA CAÍDA, CAROLINA, MARANHÃO, BRASIL

Para sair do labirinto do Minotauro, Teseu seguiu o fio que Ariadne lhe deu. Na mata da Pedra Caída, o fio é de madeira: a passarela atravessa a floresta sobre estacas, tábua por tábua, com corrimãos que convergem até sumir no verde. A mata fecha a copa por cima e o caminho parece não ter fim, mas quem entra sabe por onde voltar.

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Excelsior

Excelsior

Excelsior

PEDRA CAÍDA, CAROLINA, MARANHÃO, BRASIL

Excelsior, em latim, quer dizer sempre mais alto, e foi título de um poema de Longfellow sobre um jovem que sobe a montanha sem olhar para trás. Na sombra da mata, uma planta jovem faz o mesmo: estica as folhas em direção à abertura da copa, por onde entra a luz. A câmera, rente ao chão, olha na mesma direção que ela. Na floresta, crescer é uma forma de subir.

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Cena à Beira do Riacho

Cena à Beira do Riacho

Scene by the Brook

PEDRA CAÍDA, CAROLINA, MARANHÃO, BRASIL

Na Sinfonia Pastoral, Beethoven chamou o segundo movimento de Cena à Beira do Riacho e fez as cordas imitarem a água correndo. No fundo do cânion, o riacho passa entre pedras avermelhadas, sob uma parede de samambaias e folhas largas, e faz a mesma música com menos instrumentos. Em alemão, riacho se diz Bach. A fotografia guarda o som baixo e contínuo da água que não tem pressa de chegar.

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Antes das Flores

Antes das Flores

Before the Flowers

PEDRA CAÍDA, CAROLINA, MARANHÃO, BRASIL

As samambaias são mais antigas que as flores: cobriam a terra centenas de milhões de anos antes da primeira planta florir, e ainda se reproduzem por esporos, como no começo. À margem de um rio escuro, no fundo do cânion, elas descem pela parede em cascata e se debruçam sobre a água. Não há uma flor no quadro. Só verde, sombra e um rio que segue para fora da imagem.

IV

Os Convidados

CHAPADA DAS MESAS, MARANHÃO

A mesa estava posta muito antes de qualquer visita. Chegaram depois a capela no alto do morro, a preguiça que não tem pressa, a arara que posa como quem conhece o próprio valor. No fim do dia, a luz desce sobre as mesas e ninguém quer levantar.

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Angelus

Angelus

The Angelus

CHAPADA DAS MESAS, MARANHÃO, BRASIL

Millet pintou dois camponeses que param o trabalho ao ouvir o sino do Angelus, no fim da tarde. Aqui não há ninguém: só a capela, pequena e rosada, no alto de um morro do cerrado, com a cruz no topo e a varanda de grade vermelha. A luz baixa encontra a fachada e deixa o resto na sombra das árvores. A obra abre o último ato, o dos que chegaram depois da pedra.

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Festina Lente

Festina Lente

Festina Lente

CHAPADA DAS MESAS, MARANHÃO, BRASIL

Festina lente, apressa-te devagar, era o lema do imperador Augusto, e o impressor veneziano Aldo Manúcio o adotou com uma âncora e um golfinho. A preguiça vive pela regra: move-se pouco, gasta pouco e passa a vida nas árvores, de onde desce raramente. No galho, entre folhas iluminadas, ela olha para a câmera com a calma de quem tem todo o tempo do mundo. Na Chapada, quem não tem pressa também chega.

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Retrato Oficial

Retrato Oficial

Official Portrait

CHAPADA DAS MESAS, MARANHÃO, BRASIL

Os retratos oficiais seguem regras antigas: o modelo de frente, o fundo escuro, a postura de quem representa algo maior. A arara-vermelha-grande cumpre todas sem ter sido avisada: pousada, com o bico claro no centro do quadro, as linhas vermelhas do rosto desenhadas como um bordado e as asas de azul e verde fechadas ao lado do corpo. Não é a sua primeira vez: é ela que estampa a nota de dez reais.

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Sobremesa

Sobremesa

Sobremesa

CHAPADA DAS MESAS, MARANHÃO, BRASIL

Em português, sobremesa é o doce do fim da refeição; em espanhol, é também o tempo que se fica à mesa depois de comer, conversando, sem pressa de levantar. No fim do dia, o sol desce sobre as mesas do horizonte, entre duas torres de arenito que a erosão deixou de pé. Tudo vira silhueta, menos a luz. A série, que começou com o banquete, termina na sobremesa.

Juan Frota com a obra O Banquete

O artista e a obra

A pedra pede papel.

Cada imagem desta série nasceu para existir no papel: pigmento mineral sobre algodão, margem branca generosa, a escala certa para que O Banquete, Invenção a Duas Vozes ou Sobremesa ocupem uma parede. Na imagem, O Banquete, impressa e pronta para ser numerada, ao lado da câmera que a fez.

No jogo, o papel vence a pedra. Aqui, ele a guarda.

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A série em edição limitada

Cada obra de Chapada das Mesas existe como print fine art em edição de 25 exemplares, numerados, assinados e acompanhados de certificado de autenticidade, em três tamanhos: 30, 40 e 60 cm no lado maior. Impressão em pigmento mineral sobre papel de algodão Canson Infinity.